Caminhando pelas ruas, percebo o quanto tudo é barulhento. Pessoas pra lá e pra cá estressadas, mal se comunicam entre si. Seus olhares sérios, rostos tensos e ombros caídos demonstram que carregam um grande peso. Ao chegar num cruzamento e atravessar a faixa de pedestres, mesmo com o farol vermelho para os veículos, os carros aceleram, na pressa de chegarem a lugar algum, sedentos por massacrarem os transeuntes que caminham tão acelerados quanto seus motores.
O farol abre. O motorista do primeiro carro cai num leve cochilo devido à louca correria de seu dia e não percebe que já pode seguir adiante pra sua vida depressiva. O inferno começa.
Buzinas, gritos eufóricos e impropérios são lançados ao vento. O motorista que se distraiu, se assusta com aquela trilha sonora caótica, digna de filmes de fim do mundo.Nessa euforia toda, ele também acelera o carro e parte a milhão por hora. Os homens estão enlouquecidos, querem correr, querem acionar seus turbos, querem passar por cima de qualquer um que esteja em seu caminho. Não, eles não são homens, são máquinas programadas para correr, produzir, gastar, comprar e não sentir...
Em meio a esta orquestra de instrumentos urbanos, a trilha sonora da cidade vai se formando.
Os roncos dos motores e os gritos dos vendedores compõem parte deste caos. A arma que dispara, os gritos de socorro e as pessoas estressadas proclamando injúrias também entram na pauta musical.
O vento não se escuta, os pássaros não são vistos.
Neste cenário deprimente, coloco meus fones de ouvido para abafar o som desta orquestra ensurdecedora. Ao colocá-los, mergulho em meu mundo, e a cidade se transforma diante de mim.
A doce melodia de Beethoven eleva meus pensamentos. De repente, eu consigo viajar naquele fatídico lugar com a orquestra que brota dos pequenos fones encurvados, que dão vida e cores à cidade desordenada.
Os pássaros surgem tímidos pelos postes e fios elétricos. Observo seus movimentos com alegria. Consigo sentir novamente uma leve brisa a tocar em meu rosto em meio ao cinza da poluição.
Paro na praça central, sento num banquinho de madeira, abro minha mochila, de onde retiro um bom livro e mergulho em outro universo, onde viver ainda é possível.
Rick Marques
Um Sonhador
Um Sonhador

Comentários
Postar um comentário