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[Resenha] Morte Súbita, de J.K. Rowling


Nada de magia, nem bruxaria. Apenas a dura realidade “trouxa”.

Um livro intenso e completamente humano. JK nos leva a um verdadeiro mergulho pela imensidão dos sentimentos humanos. Não espere encontrar neste livro histórias bonitinhas e com finais felizes. A autora vai além de qualquer conto de fadas.




Um vilarejo fictício: Pagford. Distrito da cidade de Yarvil, numa Inglaterra contemporânea.
O personagem central, Barry Fairbrother, tem uma morte súbita logo no primeiro capítulo, devido a um AVC . Palmas para JK que consegue manter presente ao longo de toda história um personagem morto, que às vezes nem parece que morreu. Barry está envolvido em tramas e mistérios que se desenrolarão à medida que as personagens são apresentadas.
Barry era Conselheiro do distrito de Pagford, e após sua morte seu lugar ficou em vacância, despertando interesse de alguns em tomar posse do mesmo. Mary, sua esposa, sofre muito com sua morte, principalmente porque nos últimos tempos, Barry pouco lhe dava atenção, para ele Pagford estava acima de qualquer coisa, inclusive de sua família. 

Pagford é um vilarejo que vive de tradições e com moradores quadrados que estagnaram no tempo, dentre eles, Howard Mollison, um dos conselheiros que deseja a todo custo eleger seu filho Miles ao lugar de Barry. Junto de sua esposa Shirley, uma velha fuxiqueira e que cuida da vida de todos do vilarejo, Howard cria planos mirabolantes para conquistar a eleição para seu filho. Samantha, esposa de Miles, detesta os sogros, principalmente Shirley, com quem troca olhares de fúria e sorrisos falsos em diversos momentos, e é uma mulher cheia de desejos e altamente lasciva, que sofre por estar ficando velha e deseja a todo custo se pegar com um jovem musculoso e bom de cama, totalmente diferente de seu marido barrigudo e broxa.

Não só os Mollisons desejam o lugar de Barry, Colin Wall, diretor da escola St. Thomas e com uma admiração obsessiva por Barry também deseja o lugar do seu melhor amigo, para supostamente seguir com o trabalho dele, dentre eles em proteger o odiado bairro de Fields, que gera boa parte dos conflitos entre a alta cúpula de Pagford. 

Fields é um bairro de periferia bem afastado, fica na divisa de Yarvil e Pagford, e é motivo de muitas discórdias entre a cidade e o distrito. É lá que se encontram marginalizadas personagens como Krystal Weedon, filha de Terri Weedon, prostituta e usuária de drogas, mãe do pequeno Robie. Krystal é odiada por quase todos na escola e no distrito. Vive metida em confusões e brigas que quase sempre sai ganhando devido à sua força física. Sempre que deseja mata aulas para fumar um cigarro ou se divertir fazendo sexo com os garotos, dentre eles, Bola Wall, filho de Colin, um jovem revoltado de classe média, que adora um baseado e faz de tudo para contrariar seu pai, o qual tanto odeia. Apesar de não odiar sua mãe Tessa, a despreza por defender seu pai. Bola se diz autêntico e não se conforma com a falta de autenticidade das pessoas, principalmente a de Colin, que esconde segredos chocantes.

Simon Price, um homem violento, machista e vigarista também está disposto a fazer qualquer coisa para ocupar o lugar de Fairbrother.  Desde roubos e desvios de dinheiro da gráfica onde trabalha, a agressões físicas e psicológicas à sua esposa Ruth e aos filhos Andrew e Paul.

Conhecemos também Parminder Jawanda, uma médica estrangeira que vive no vilarejo há alguns anos e detestada pela maioria da população, um bando de xenofóbicos. Parminder, é casada com o renomado cirurgião Vikram e mãe da problemática Suckvinder, que sofre bullyng na escola, principalmente por Bolla Wall, por ser feia, gordinha e ter bigode, sendo muitas vezes agredida e chamada de lésbica, hermafrodita e derivados. Parminder também é membra do Conselho Distrital, e foi apaixonada por Barry, o qual a morte desestabilizou completamente a médica.

A lista de personagens é imensa, e eu ficaria horas descrevendo cada um. Se há algo forte neste livro é justamente a construção das personagens. JK é fiel a cada detalhe da personalidade, o que faz você se teletransportar à mente de cada um e vivenciar o que estão sentindo. Não existem bons nem maus nesta trama. São todos vítimas e algozes de uma sociedade hipócrita e fraudulenta. Durante os diálogos, é interessante que podemos “visualizar” os verdadeiros pensamentos das personagens e o quanto é real, pois assim somos nós, nos moldamos às situações do dia-a-dia, criamos máscaras para agradar família, chefes, amigos, para nos encaixarmos em padrões pré-estabelecidos quando muitas vezes queremos mandar todo mundo ir à merda e nos libertar de toda essa hipocrisia e ciclo vicioso que vivemos.

Como disse no início, Morte Súbita (The Casual Vacancy) é um livro humano. Pode ser nojento em alguns momentos e causar certo repúdio a mentes mais conservadoras, no entanto, nada mais é do que um reflexo de nossas vidas egocêntricas e hipócritas. 

Espero que eu tenha conseguido despertar um pouco o interesse de vocês por este livro. É fabuloso, apesar de não ter a magia de Harry Potter, possui a maior magia de todas impregnado em suas páginas: A ALMA HUMANA.

Surpreenda-se. Visite Pagford!

Grande abraço!

Rick Marques
Um Sonhador

Obra: Morte Súbita, de J.K. Rowling
Editora Nova Fronteira - 1ª edição, 2012
ISBN: 978.85.209.3253-7

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