De Profundis é o título de uma obra de 1897, do escritor e dramaturgo irlandês Oscar Wilde (1854-1900), de grande renome em Londres, no século XIX, que toma a forma de uma longa e emocional carta ao seu amante Lord Alfred Douglas (1870-1945). Wilde a escreveu na prisão de Reading, onde cumpria pena de prisão por comportamento considerado indecente à época e sodomia (relações sexuais entre homens).
A carta relata com muita dor e detalhes todo o relacionamento conturbado de Wilde com Douglas, o que na época era completamente inadmissível pelas leis da sociedade inglesa.
Quando Marquês de Queensberry descobriu o relacionamento homossexual que seu filho mantinha com o escritor, enviou uma carta à Oscar Wilde, no Albermale Club, onde já o ofendia no sobrescrito: "A Oscar Wilde, Conhecido Sodomita".
O escritor então decidiu processar o Marquês por difamação, no entanto, desistiu logo em seguida temendo represálias, mas era tarde demais, pois sua vida pessoal estava exposta em toda sociedade e, provas sobre sua homossexualidade se espalhavam por toda Londres.
Por práticas sodomitas, termo usado à época, Oscar Wilde foi condenado, em 1895, a 2 anos de prisão e, sua maior dor foi saber que todo amor dedicado a Lorde Alfred Douglas nada significou a ele, que aliado ao seu pai, Marquês, o condenou passando-se por vítima, jogando fora toda relação que construíram ao longo dos últimos 5 anos.
Wilde, que era casado, teve a guarda de seus dois filhos retiradas, seus bens penhorados, sua dignidade destruída, e foi humilhado em praça pública por toda alta sociedade pelas práticas sexuais que realizava.
No primeiro ano que esteve preso nas frias e escuras celas de Reading, odiou a vida, amigos, família e odiou Bosie. Martirizou-se por todos os seus "pecados" e suas perdas, mas o que mais lhe doía era a dor da traição de seu amado; que além de traí-lo não havia sequer enviado uma carta durante um ano preso, jamais lhe fizera uma visita, jamais lhe pedira perdão. Fora traído e jogado às margens da sociedade.
"Mas o amor não é algo que possa ser negociado num mercado ou pesado na balança de mascate. Sua alegria, como as alegrias do espírito, é sentir que está vivo. O único objetivo do amor é amar. Nem mais, nem menos. Você era meu inimigo, um inimigo como nenhum outro homem já teve. Eu havia lhe dado a minha vida e, para satisfazer as mais baixas e desprezíveis de todas as paixões humanas, o ódio, a vaidade e a cobiça, você o desprezara." - Trecho de 'De Profundis'
Oscar Wilde relata em sua carta seus mais profundos sentimentos. Ele que vivia em extremo luxo, e gozava dos melhores vinhos, lugares, hotéis e festas da época se entregara a um sentimento pecador, na loucura de um jovem irresponsável e mesquinho que destruíra sua vida. Bancava tudo que podia para o aproveitador Lorde Alfred Douglas, a quem muito amava. Ao que parecia, a relação de Wilde com Douglas sempre fora de uma única via, de Wilde para Douglas, visto que o jovem lorde pouco se importava com a grande bagagem cultural do escritor, que aliás, era quase 20 anos mais velho. Talvez por isso se aproveitava tanto.
Por vezes Douglas adoecia e Wilde cuidava dele com todo seu amor e atenção, e este, era desprezado pelo jovem tão logo estivesse são. Douglas trocava os abraços de Wilde pela luxúria da vida noturna, onde se envolvia em relações com outros homens, enquanto aquele que o amava permanecia à sua espera todas as noites.
Os relatos de Wilde são intensos, é preciso ler e sentir cada palavra que ele escrevera. Sua carta foi escrita dia após dia, sem revisão ou correção, pois recebia uma folha por dia dos carcereiros e aproveitava cada espaço para escrever ao amado seu relato, sua dor e a sua espera.
Após um período de revolta, que durou cerca de um ano, Wilde passou a visualizar sua situação de uma forma espiritualizada, onde podemos acompanhar sua redenção. Lembrou-se dos estudos do Evangelho, onde passou a compreender de fato o papel de Cristo na Terra. Sim, ele era como Cristo. Assim como Cristo se entregara à humanidade de corpo e alma e nada mais fez além de dar amor, ele dera todo seu amor a Bosie. Ele se tornara um mártir. Naquele momento de escuridão, sua fé em Cristo foi o que o amparou, e ele então embarca numa profunda reflexão filosófica sobre a humanidade, que considero um dos melhores momentos do livro-carta.
Em muitos momentos me teletransportei ao lado de Wilde na cela escura e fria. Senti a sua dor, tamanha descrição de detalhes de sua vida, e tudo que fizera por um único pecado: o pecado de amar. A própria sociedade o obrigou a manter uma vida dupla. esta mesma sociedade hipócrita o marginalizou, e muitos que realizavam as mesmas práticas que ele permaneceram no anonimato ou até mesmo o acusaram, como seu amado Douglas.
Enquanto esteve preso, Wilde enviou muitas cartas à Alfred Douglas, que ignorou todas, mas este já tinha em mente publicá-las em um livro sobre sua vida com o amante.
Quase três anos depois de libertado das grades, Wilde faleceu em Paris, vítima de uma violenta meningite.
O fato histórico de seu sucesso ter sido arruinado pelo Lord Alfred Douglas tornou-lhe ainda mais culto e filosófico, sempre defendendo o amor que não ousava dizer o nome e a definição sobre a homossexualidade como forma de mais perfeita afeição e amor.
É importante saber:
"Enquanto na prisão Wilde não foi autorizado a enviar a carta que escrevera, apenas lhe foi permitido levar o manuscrito consigo no final da pena. Wilde acabou por confiar o manuscrito ao seu amigo jornalista Robert Ross, que fez duas cópias datilografadas. Uma terá sido enviada a Douglas, que negou sempre tê-la alguma vez recebido. Em 1905, quatro anos após a morte de Wilde, Ross publicou uma versão reduzida (cerca de um terço) da carta com o título De Profundis, que viria a ser utilizado sempre em edições posteriores. O original foi doado em 1909, por Ross, ao British Museum, com a condição expressa que não fosse apresentada ao público durante cinquenta anos. A segunda cópia dactilografada foi utilizada para a publicação da "primeira versão completa e rigorosa" por Vyvyan Holland, filho de Wilde, em 1949. Na realidade, quando em 1960, o manuscrito foi tornado público, foi possível estabelecer que a cópia datilografada continha cerca de uma centena de erros. A versão correcta viria a ser publicada em 1962 no livro de cartas The Letters of Oscar Wilde." - Fonte: Wikipédia
Recomendo muito este livro, que também acompanha outras cartas escritas por Wilde - enquanto no cárcere - para o editor do Daily Chronicle, onde denuncia atos ilícitos por parte do sistema carcerário inglês.
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Grande abraço!
Rick Marques
Um Sonhador
Obra: De Profundis, de Oscar Wilde
Editora L&M Pocket - 2011
ISBN: 978.85.254.2366-5 (ePub)

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