O céu estava cinzento. Não havia árvores, não havia pássaros.
Os rios estavam secos, sem vida. A cidade coberta pela escuridão, mas ainda era dia.
- Onde estou? Que lugar é esse? – perguntou o pequeno garoto, Guilherme, ao senhor que estava sentado num latão de lixo.
- Você está no Brasil, onde mais? Precisamente em Atibaia, interior do que um dia foi o estado de São Paulo.
- Tem algo errado senhor...
O senhor, de baixa estatura, de poucos cabelos brancos, olhos tristes, o encarou como se não compreendesse suas palavras.
- Senhor, qual seu nome?
- Meu nome é Josias garoto.
- Sr. Josias... Este lugar não pode ser Atibaia. Há algo errado, pois, ainda ontem caminhei pela cidade e havia árvores, pássaros e pessoas pelas ruas. Onde eu estou!?
Guilherme já estava assustado com o que via, mas, Sr. Josias aparentava estar ainda mais assustado, em sua cabeça, pensava que o garoto estava louco e começou a se afastar, mas o pequeno segurou-lhe o braço implorando para não ir embora.
- Por favor, não vá embora!
Guilherme retirou seu celular do bolso para tentar se comunicar com alguém, e qual foi sua surpresa, na tela do aparelho marcava exatamente 15 horas do dia 13 de agosto de...
- 2057!? – gritou apavorado – Isso só pode ser um pesadelo!
Grandes nuvens cinza pairavam sobre a cidade, mas não eram nuvens de chuvas ou de um dia nublado, eram nuvens cinza de poluição.
Guilherme estava confuso, transtornado e sem entender o que acontecia em meio a tanta poluição, prédios e mais prédios pichados, casas destruídas, carros velhos e enferrujados abandonados aos montes pelas ruas. Uma imensa floresta cinza, uma cidade fantasma. Um lugar impossível de se respirar.
Senhor Josias o olhou um tanto desconfiado e perguntou:
- Garoto, você é muito estranho, de onde você veio?
- Eu sou de Atibaia! Não sei o que está acontecendo, ontem mesmo eu estava em minha casa, fui dormir e quando dei por mim eu estava aqui neste lugar horrível! O que está acontecendo? Que lugar é esse? Onde estão todos?
Senhor Josias com um olhar de acolhimento, o segurou pelo braço. Suas mãos velhas nem tinham mais forças, e, em pequenos passos o levou pela cidade e foi relatando tudo o que aconteceu.
- Como é seu nome garoto?
- Meu nome é Guilherme.
- Muito bem Guilherme, quantos anos você tem?
- 12.
- Jovem ainda, muito jovem. Eu já tenho meus oitenta e nove anos e vi muita coisa acontecer nas últimas décadas. O homem se autodestruiu aos poucos. Ninguém se preocupava com o futuro. Eu mesmo não imaginei que chegaríamos nesse ponto um dia.
Por volta de 2030, houve uma escassez de água no mundo todo. Nem mesmo nosso Rio Amazonas escapou dessa escassez. Muitos países entraram em guerra por causa dos recursos naturais do nosso país e de outros países tropicais. O governo daquela época se curvou diante da pressão dos Estados Unidos, que acabou dominando toda a vasta região da Amazônia. Bilhões de metros cúbicos de água foram levados para fora do país e vendidos a milhões de dólares. E o pouco que sobrou nos rios, estava completamente poluído. A guerra pela água tomou conta do mundo todo, bilhões de pessoas morreram em guerras ou pela falta de água, e conseqüentemente, de fome, pois sem água não havia como cultivar alimentos. O planeta Terra tornou-se um caos.
Senhor Josias fez uma pausa e com os olhos tristes cheio de lágrimas, continuou:
- Guilherme... Eu tentei de todas as formas, lutei com todas as minhas forças para salvar esse mundo, para mudar a consciência das pessoas. Junto de um grupo de amigos - que infelizmente, não estão mais presentes - percorremos este Brasil todo buscando conscientizar as pessoas, mas o ser humano só se deu conta de que o planeta estava morrendo tarde demais...
Um longo silêncio pairou entre os dois. Guilherme olhava fundo nos olhos do velho ativista desacreditado do que ouvia. Ele observava toda sua cidade destruída, imunda e sem vida. Imensos prédios vazios. Muitas coisas se passaram em sua mente. Um peso enorme o sufocava. E lembrou-se das vezes em que sua mãe chamava-lhe a atenção para fechar a torneira do banheiro; para não demorar no banho; para economizar água; para não jogar lixo nas ruas; para não deixar as luzes acesas sem necessidade; e etc. Sentiu-se culpado.
- Eu sou culpado! Não consigo acreditar em minha ignorância ao ser tão irresponsável!
Sr. Josias o olhou espantado.
- Sr. Josias, pode ter certeza, o que o senhor fez pelo mundo não foi em vão! Enquanto há vida, há esperança! Eu acredito!
- Não, Guilherme. Não vejo mais esperança neste mundo. Este velho presenciou sua família, seus amigos e todo o planeta morrer aos poucos, não há mais esperança, somente trevas e lamentações.
Aquelas palavras tocaram o fundo da alma do jovem, e no seu coração ele sentiu que poderia mudar o triste fim que esperava o planeta. Olhou com firmeza nos olhos do Sr. Josias:
- Eu juro que vou salvar este planeta!
Com um pequeno sorriso, e os olhos brilhando como se finalmente enxergasse uma nova esperança, o velho retirou de seu bolso uma pequena pedra de turquesa, no formato de um sapo e disse:
- Pegue isto. Encontrei esta pedra na beira do Rio Amazonas, há muitos anos atrás, num dos protestos que fizemos para preservar a Amazônia. Ela sempre me inspirou, e acredito que tenha me trazido sorte. Guarde-a com você. Eu acredito em você Guilherme. Você poderá ajudar a salvar o mundo.
Com um sorriso no rosto, Guilherme deu um forte abraço em Sr. Josias, que retribuiu com um grande sorriso e agradeceu.
–Obrigado... jovem...
Guilherme sentiu os braços de Sr. Josias desfalecerem sobre os seus. Com um rosto terno, o velho senhor faleceu em seus braços.
Choro.
De repente, um forte vendaval atingiu a cidade, Guilherme não conseguia se segurar e foi arrastado pelo vento, quando... Acordou. Acordou assustado e com muito frio, que entrava pela janela de seu quarto.
- Não! Não! Sr. Josias! Não... não... foi... apenas um sonho!
Alívio.
Guilherme se recompunha quando sentiu algo em suas mãos, ao olhar, surpreendeu-se:
- A pedra de sapo! Mas, como!?
Desesperado, o jovem saiu correndo em direção à janela. O sol estava nascendo. Havia pássaros voando, e as árvores estavam lá, ainda inteiras. As pessoas seguiam com suas vidas normais.
- Como essa pedra veio parar aqui?
Ele apertou forte aquele objeto tão especial, e com um grande sorriso teve a certeza de que ela era um aviso, do que aguardava o nosso planeta. Decidiu dali pra frente, que teria consciência e faria sua parte para mudar o triste destino que esperava a humanidade.
- Ainda há tempo!
Rick Marques
Um Sonhador
Um Sonhador

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