Quadro "A Caveira", de Paul Cézanne
Quando tento me recordar de acontecimentos de minha infância, vejo apenas imagens foscas, como um quadro impressionista. É difícil organizar as memórias de modo que elas digam algo coerente.
Eu poderia descrever dezenas ou centenas de imagens, que não fariam o menor sentido. Seria bom poder fotografar as lembranças, os pensamentos...
Existe uma coisa engraçada sobre as lembranças: por mais que você as recorde, você nunca as recorda como elas eram de fato. De alguma forma, o tempo passa e a nossa mente fantasia toda uma situação. Às vezes, a própria fantasia se torna a "lembrança verdadeira" e nunca descobriremos o que foi mesmo real.
Quando me recordo do passado, compreendo que desde sempre percorremos uma trajetória individual. Por mais que se tenha companhia, de sermos o tempo todo rodeado de pessoas, ninguém pode penetrar nossa mente e descobrir o que realmente pensamos. Ninguém consegue sentir nossas dores como nós a sentimos. Ninguém consegue sentir nossa felicidade como nós. Por mais que se compartilhe um sentimento, ele nunca será sentido 100% por alguém. Seguimos uma jornada individual dentro de nós mesmos. Uma jornada por vezes solitária e incompreensível.
Ao longo de nossas vidas, compartilhamos momentos com pessoas: situações felizes, tristes, trágicas, cômicas. Se cada um escrevesse um livro sobre sua trajetória, onde envolvesse os cruzamentos de vidas com outros, tenho certeza que teríamos centenas de histórias diferentes sobre a mesma história, porque cada um tem o poder de ver e criar o mundo sob seu próprio ângulo, sentimentos e, esta visão nunca será igual a de ninguém.
A companhia que temos é passageira, pois a vida de todos é marcada por passagens. A vida é efêmera, assim como nossos sentimentos.
Nossa jornada é individual. Individual interiormente. Por vezes gostaríamos de compartilhar nossos sentimentos, de modo a fazer o outro entender o que sentimos. Mas, por quê? Por que querer que o outro sinta o que sentimos? Talvez pra dizer a ele: "eu estou vivo, preciso de ajuda e não quero seguir sozinho".
Ter o calor de alguém que amamos faz uma grande diferença nessa jornada individual. A vida ganha um sabor diferente, e mesmo que estejamos sozinhos quando fechamos os olhos, sabemos que ao abri-los, teremos alguém que nos ama, que está disposto a compartilhar sentimentos, e criar nossas lembranças, fantasias e, num futuro distante, recordá-las e reinventá-las...
Rick Marques

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