Pular para o conteúdo principal

[Resenha] Laranja Mecânica, de Anthony Burgess

"...A tentativa de impor ao homem, uma criatura evoluída e capaz de atitudes doces, que escorra suculento pelos lábios barbados de Deus, são apropriadas a uma criação mecânica, contra isto eu levanto minha caneta espada..."

Um livro perturbador.

Uma crítica voraz a um sistema que manipula os desejos e a vida dos homens.

Um futuro que já é passado e é nosso presente. 

Assim defino Laranja Mecânica (A Clockwork Orange, no original). Este provavelmente é um livro que, me atrevo a dizer, não agrada ao gosto do público geral, mas sim de pessoas mais críticas e amantes de linguagens como o surrealismo. É necessário deixar de lado todos os nossos pré-julgamentos para mergulhar de cabeça neste universo.

A história é narrada por Alex, um jovem adolescente delinquente, que com sua gangue pratica atos ultra-violentos numa sociedade manipulada pelos interesses do governo e repleta de tribos urbanas rivais, em um futuro muito distante para época em que o livro foi lançado (1962), mas que para os dias atuais, não surpreende tanto assim, visto que muito do que é descrito,  hoje é nossa realidade. Seria Arthur Burgess um profeta? Não sei. Mas é inegável o estranhamento que o livro nos causa num primeiro momento devido à sua narrativa e às gírias criadas pelo autor para caracterizar as falas dos Nadsat . 
(tribo urbana).


Alex conversa com os leitores o tempo todo utilizando desta linguagem estranha, e por vezes engraçada; este é um incômodo que me acometeu nas primeiras páginas. Prosseguindo com a leitura, acabei me acostumando e por diversas vezes tentei adivinhar o que eram tais palavras como: noga, króvi, gúliver, ploti, pleni, skorre, ruka, drugui etc... Ao final do livro há um glossário muito simpático, mas advirto que o próprio autor desejava causar este estranhamento aos leitores - na edição original não existe glossário -, por isso, recomenda-se ler o livro sem verificar os significados e sentir este incômodo causado pela linguagem. Desta forma, acabamos mergulhando na história como se fôssemos um dos cidadãos daquela sociedade também capitalista.

Alex, comete muitos crimes com seus druguis, ele é o líder da gangue. Um adolescente rebelde e revoltado com o sistema capitalista e com a futilidade dos jovens de sua idade. Arthur Burgess destaca as músicas escrachadas que fazem sucesso entre os adolescentes.

Alex é  mau. Eu diria que psicopata. Ele não tem sentimentos por ninguém, e tem prazer em machucar, roubar e matar. Além de ser um filósofo dos tempos modernos. 

A sociedade em questão é dominada por um governo manipulador e por uma polícia violenta (oi, isso é futuro?). Cada um segue sua vida conforme seus interesses, e em determinado momento da história, nosso Humilde Narrador é traído por seus próprios companheiros e "sem querer" acaba cometendo um assassinato - que descrevo como sendo de forma muito covarde - e acaba sendo preso pelos "miliquinhas rozas" (policiais).

A partir daqui, o verdadeiro inferno de Alex começa. O jovem, para desgosto dos pais, é condenado e permanece preso por 2 anos. Na prisão ele cria uma identidade falsa e tenta ser bonzinho para conseguir privilégios com os carcereiros.  No entanto, a máscara não dura muito tempo tempo, e mais uma vez - agora dentro da cadeia - nosso drugui comete um crime: assassina um dos companheiros de cela. Por conta de mais um ato violento, o jovem é aconselhado a seguir um Tratamento de Recuperação, onde prometem recuperar sua índole e libertá-lo em 15 dias. Desejando ardentemente por sua liberdade de volta, Alex assina o termo e caminha para sua "morte psicológica".

Alex é submetido à Técnica Ludovico, um intenso tratamento de lavagem cerebral, onde é amarrado em uma cadeira como aquelas de dentista e tem suas pálpebras presas para não fechar os olhos, e passa a assistir diariamente, por horas, cenas das mais horrendas atrocidades praticadas pelo ser humano; estupros, mortes, esquartejamentos, guerras (II Guerra), torturas; todas estas imagens ao som de músicas clássicas que nosso herói delinquente mais amava: Sinfonias de Ludwig van Beethoven. Sim meus amigos, Alex era suburbano, mas amava músicas cult. Colecionada diversos discos de Beethoven.

A tortura que Alex sofre é muito cruel. Cheguei a ter pena do que acometeu ao jovem. Senti náuseas apenas lendo sua narrativa. São cenas fortes, com descrições ricas em detalhes. 

A narrativa não acaba por aí. Após recomposto e transformado em "homem bom", Alex ainda teria que enfrentar as humilhações da imprensa, agora que havia se transformado  em bonequinho do governo. E mais: a oposição do governo passa a perseguir Alex para também usá-lo como cobaia em favor de seus interesses e também enganar a população. Um verdadeiro universo de ratos. Alguma semelhança com nossa época?

Não entrarei em detalhes dos resultados dessas experiências, pois pra quem ainda não leu este livro, pode perder o impacto das imagens, mas posso adiantar que ele passa a viver um sofrimento diário e a desejar a própria morte - o que em tempos anteriores, jamais havia pensado.

Este livro é uma clara crítica ao governo britânico da época (1962) e ao mesmo tempo um prelúdio do que viria décadas depois e que vivemos hoje.

As interpretações são muitas, e nos deixam uma forte reflexão sobre nossas atitudes e nossa vidinha cotidiana. O quanto somos manipulados? O quanto nossos desejos são realmente nossos?

Um livro que não deve faltar na estante dos mais fissurados leitores.

Lembrando que quem quiser saber mais, também pode assistir ao filme de mesmo nome, de 1971, com a excelente atuação de Malcolm McDowell, na pele de Alex.

Já leu ou assistiu Laranja Mecânica? Comente! ;)


Rick Marques
Um Sonhador

Obra: Laranja Mecânica, de Arthur Burgess
Editora ALEPH - 1ª edição - 2004
ISBN: 978-85-7657-003-5

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

[Resenha] A Volta do Filho Pródigo, de Henri J. M. Nouwen

Sempre acreditei e afirmo que:  "Viver é uma busca" . E ao ler esta linda obra de Henri Nouwen, eu tive mais certeza disso. "A Volta do Filho Pródigo" é  uma busca por respostas, num mergulho pela alma do autor, utilizando de uma profunda análise da pintura de mesmo nome, do grande artista  Rembrant van Rijin  (1606 - 1669), traçando um paralelo entre a pintura e a parábola narrada por Jesus.  Antes de mais nada, é importante explicar que apesar do livro ter uma temática religiosa, ele vai muito além disso. Mais do que um simples livro religioso, é um livro humano, que nos mostra o quanto somos frágeis e imaturos diante da vida. O quanto agimos com impulsividade e com impaciência. O autor conversa conosco como se fosse um amigo íntimo, revelando seus pensamentos mais profundos, seus medos e angústias.

[Resenha] [Clássicos] De Profundis, de Oscar Wilde

De Profundis  é o título de uma obra de 1897, do escritor e dramaturgo irlandês Oscar Wilde (1854-1900), de grande renome em Londres, no século XIX, que toma a forma de uma longa e emocional carta ao seu amante Lord Alfred Douglas (1870-1945). Wilde a escreveu na prisão de  Reading , onde cumpria pena de prisão por comportamento considerado indecente à época e sodomia (relações sexuais entre homens). A carta relata com muita dor e detalhes todo o relacionamento conturbado de Wilde com Douglas, o que na época era completamente inadmissível pelas leis da sociedade inglesa.  Quando  Marquês de Queensberry  descobriu o relacionamento homossexual que seu filho mantinha com o escritor, enviou uma carta à Oscar Wilde, no Albermale Club, onde já o ofendia no sobrescrito: "A Oscar Wilde, Conhecido Sodomita". O escritor então decidiu processar o Marquês por difamação, no entanto, desistiu logo em seguida temendo represálias, mas era tarde demais, pois sua ...

[Resenha] A Travessia, de William P. Young

Antony Spencer, carinhosamente tratado como Tony, é um jovem empresário, egocêntrico, mesquinho e de grande poder econômico, que não mede esforços para alcançar seus objetivos. Foi casado duas vezes com a mesma mulher, Loree, a quem muito humilha e com quem teve dois filhos: Angela, de 17 anos, e Gabriel, que morrera ainda criança vítima de um câncer.  Desde a morte do filho que Tony perdeu a vontade de viver, e a partir de então, dedicou sua vida somente ao trabalho, vícios e conquistas materiais. Despreza a ex-esposa, por quem só mantém contato através de advogados, e ultimamente, nem amigos possui, devido à sua personalidade egocêntrica. Assim como A Cabana, neste mais recente livro de William P. Young, nos deparamos em uma trajetória pela busca de algo além do que enxergamos, uma busca pelo divino que há dentro de nós e que está à nossa volta.  Logo no começo da história, encontramos Tony e suas paranoias de perseguição, correndo alucinadamente com seu c...