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Encontro com o Medo



Certa noite ao me deitar, alguém bate à porta de meu quarto. Eram 23h59. Meu coração acelerou, pois eu morava sozinho naquela casa.
- Será um ladrão? - pensei.
Em minha mente, mil e uma coisas se passaram em segundos. Levantei e fiquei à espreita com um guarda-chuva na mão, a única 'arma' que eu detinha.
Novamente bateram à porta.
Minha respiração estava ofegante e meu coração gélido de medo. Aos poucos, fui aproximando minha mão esquerda da maçaneta, enquanto segurava o guarda-chuva com a direita. Ao encostar na maçaneta, senti que ela estava girando. Um arrepio me atingiu o braço e percorreu minhas veias. Sem pensar duas vezes abri a porta bruscamente, já levando o guarda-chuva em direção ao... nada!
Não havia nada, nem ninguém. Permaneci estático olhando para a escuridão do corredor. De fora da casa ouvia-se apenas os grilos, quando de repente, uma voz fria quebrou o silêncio:
- Do que tem medo?
Virei meu corpo para trás e havia uma figura estranha e obscura em minha cama.
- Quem é você!?
- Está com medo de mim?
Aquela voz, não me era estranha. Sim, eu conhecia aquela voz, mas, de onde? Ela soava gélida e tão apavorante dentro de mim que eu não conseguia enxergar o óbvio.
- E-Eu... q-quem... - gaguejei.
- Do que tem medo? Do que tem medo? Do que tem medo?... - repetia incisivamente.
A voz ecoava por todos os lados, e meus olhos foram se acostumando à escuridão. Levei o maior susto de minha vida quando consegui enxergar a face daquela criatura. Aquele ser, envolto em sombras, nu, com os olhos vermelhos, sujo e cheio de feridas pelo corpo era... era eu! Não consegui dizer nada. Meus olhos se fixaram nos dele. O que era aquilo? Parecia ser um protótipo de mim mesmo.
Um sorriso sinistro se abriu dos lábios daquela figura horrenda. Seus dentes vermelhos de sangue o deixavam ainda mais assustador.
- Está com medo de mim? Está com medo de você mesmo?
- C-Com medo de mim?!... Q-Que palhaçada é essa?!
- Palhaçada? Você acha que eu sou uma palhaçada?
Silêncio.
Meus lábios tremiam, um pavor imenso crescia em meu peito. Eu desejava gritar, pedir socorro, mas minha voz não saía. Meu corpo estava paralisado. Aquele protótipo se levantou da cama e caminhou em direção a mim.
- Você acha que eu sou uma palhaçada?... Você não percebe?... VOCÊ FEZ ISSO COMIGO!
Ele ficou em descontrole, de suas feridas jorravam cada vez mais sangue. À medida que gritava, sua saliva vermelha atingia meu rosto.
- Fique longe de mim! - gritei.
- Você pode fugir de todos, mas não pode fugir de você mesmo!
- Eu não sou você! Eu não sou esse espectro horrível!
Num lapso de segundo, o ser sombrio avançou sobre mim e agarrou meu pescoço. Seus olhos eram ainda mais assustadores. Ódio e tristeza envolviam seu olhar.
- Olhe bem pra esse 'espectro horrível', olha bem nos meus olhos. Olhe! Veja o abismo que você me jogou!
- Para! Me larga! Eu não sei quem é você! Eu não fiz nada pra você! Socorro! Socorro!...
Com aquelas mãos ensanguentadas ele segurou meus lábios e soltou uma grande gargalhada.
- HA! HA! HA! HA! HA! HA! HA! Seu idiota! Você não consegue perceber!? Eu sou o Medo! Sou a criatura mais terrível que você criou. Eu sou você mesmo. Um espectro da sua alma. O monstro que habita dentro de você. Olhe em meus olhos, olhe pra dentro de você e veja o abismo em que se jogou!
Após dizer estas palavras, ficou em silêncio e me soltou. Permaneci estático olhando para seus olhos vermelhos. O Medo então, entrou em convulsivo choro. Um choro angustiante que embaralhava meus pensamentos. Ele agonizava diante de mim e eu podia sentir toda sua dor. A minha dor. A minha dor o torturava. O meu ódio o dilacerava. E a minha tristeza o acolhia.
Enquanto chorava, suas lágrimas lavavam seu corpo. O Medo foi se encolhendo e se apertando com seus braços feridos. Seu olhar já não era mais de ódio e nem de tristeza, mas eram negros, de um profundo vazio. Diante daquele ser torturado, me rendi.
- No que eu me tornei?... - pensei.
Me aproximei do Medo, que se encolhia cada vez mais. Coloquei as mãos sobre seus ombros e uma forte luz saiu de meu peito em direção ao peito dele. O Medo foi desaparecendo, e a escuridão foi tomada pelo silêncio.
De meus olhos brotaram lágrimas, senti o vazio da noite me envolver, e ali mesmo naquele chão frio, adormeci.

Rick Marques

Um Sonhador

Comentários

  1. É preciso coragem para olhar em seus próprios olhos, e ver o medo que neles existe. Mais coragem ainda é abandonar o conforto acolhedor e torturante de seu abraço! Parabéns Rick, por se permitir nesta viagem e neste encontro.

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  2. Marco, obrigado pelo comentário. É... não é fácil encarar o medo, mas ele não pode ficar escondido pra sempre. Uma hora ele tem que sair, se não sai por sua vontade, ele toma forma própria e pode te atacar.

    Grande abraço meu amigo!!! ;)

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